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O grito justo da revolta dos agricultores

In NOVO, 10 fevereiro 2024

Os agricultores europeus produzem alimentos de qualidade a preços acessíveis, respeitando os mais elevados padrões ambientais e de segurança alimentar. Em simultâneo, são escultores das nossas paisagens e contribuem para o desenvolvimento do mundo rural, reforçando a coesão territorial. Infelizmente, não há o reconhecimento nem a valorização dos agricultores. Na UE, a idade média dos agricultores é de cerca de 58 anos, enquanto que em Portugal é superior a 64 anos. A profissão não é atrativa, sobretudo pelo seu salário, que fica muito abaixo dos salários das outras profissões. A consequência tem sido a redução do número de explorações agrícolas.

Não fico surpreendido com os fortes protestos dos agricultores. Há um radicalismo verde e uma ecologia punitiva que prejudica os agricultores e não beneficia nem a qualidade dos solos, nem o combate às alterações climáticas. Há responsabilidades da Comissão Europeia, do Conselho da UE, do Parlamento Europeu e dos governos nacionais. Os agricultores protestam com razão. Lançaram um grito de revolta que tem de originar uma ação concreta e rápida a nível europeu e a nível nacional.

A Comissão Europeia, através do seu dogmático ex Vice-Presidente – socialista- Frans Timmermans, exagerou e atacou os agricultores. Foi apoiado pelos verdes e pela esquerda europeia presente no Conselho e no Parlamento Europeu. O grupo político a que pertenço, o Partido Popular Europeu (PPE), porque sempre defendeu os agricultores, foi apelidado de inimigo do ambiente e sofreu bullying nos vários dossiers legislativos. Há quem pretenda reduzir a área de produção alimentar na UE ou reduzir radicalmente a utilização de produtos fitofarmacêuticos, o que implicaria no imediato o aumento das importações de produtos alimentares que não cumprem as mesmas exigências ambientais e de segurança alimentar que temos na UE.

Não haverá transição climática sem envolver os agricultores. As exigências, os encargos, as regras e normas passaram a ser insuportáveis. A transição climática, para ter sucesso, implica firmeza, envolvimento e gradualismo.

Em Portugal, o governo socialista esqueceu o mundo rural e desprezou os agricultores. O governo desmantelou o Ministério da Agricultura e não quis solucionar o problema da seca que seria resolvido se armazenássemos a água e a geríssemos de forma eficiente. Por isso, insisti que deveríamos utilizar o PRR para este objetivo. Note-se que Portugal não quis 8300 milhões de euros que tinham de ser “sinalizados” até 31 de agosto de 2023. Não falta dinheiro, falta competência e vontade política!

Não é aceitável que o governo retenha os montantes que recebe da UE e que são destinados aos agricultores. Não é compreensível que tenham havido cortes de cerca de 35% nos pagamentos diretos para a agricultura biológica. Foi preciso uma manifestação dos agricultores para prometerem gasóleo mais barato, o desbloqueamento das verbas que estão em atraso e a revisão dos cortes que foram assumidos como um lapso do ministério. É necessário colocar um ponto final em tanta desculpa e incompetência!

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